Índice · 13 capítulos
Antes da Térvore
A história de Elden Ring começa muito antes da Ordem Dourada. As Terras Intermédias já possuíam formas de vida, povos, deuses e sistemas de poder antes da ascensão de Marika. O Crisol é descrito como um estado primordial da vida, no qual características que mais tarde seriam consideradas impuras — como chifres, caudas e asas — eram sinais de uma vitalidade antiga.
A Grande Vontade está ligada à chegada de forças vindas do cosmos. A Besta Prístina veio às Terras Intermédias em uma estrela dourada e acabaria associada ao próprio Anel Prístino, a manifestação da Ordem que governa as leis do mundo.
Shadow of the Erdtree acrescenta uma revelação importante a esse passado. Metyr, Mãe dos Dedos, é descrita como uma filha da Grande Vontade e como a primeira estrela cadente a alcançar as Terras Intermédias. Dela nasceram os Dois Dedos e os Dedos Rastejantes. Em algum momento, porém, Metyr deixou de receber sinais da Grande Vontade, mesmo continuando a esperar por uma resposta.
Isso muda a leitura de toda a religião dos Dedos: parte da orientação divina que sustentou eras inteiras pode ter continuado muito depois de a comunicação original já ter sido interrompida.
Marika e a Ordem Dourada
Marika ascendeu à condição de deusa e tornou-se receptáculo do Anel Prístino. Sua era foi construída ao redor da Térvore e de uma nova forma de Ordem. Um dos atos decisivos dessa fundação foi remover a Runa da Morte do Anel Prístino e confiar a Morte Destinada a Maliketh, sua sombra.
A retirada da Morte Destinada não significou simplesmente que ninguém poderia ser ferido ou morto em combate. O ponto central era que a morte verdadeira deixou de ocupar o mesmo lugar dentro da ordem do mundo. A relação entre corpos, almas, sepultamento e retorno à Térvore passou a obedecer às regras impostas pela nova era.
Marika não estabeleceu sua ordem de forma pacífica. A expansão da Térvore envolveu guerras, alianças e a substituição de sistemas religiosos anteriores. A própria existência do Crisol, dos gigantes, dos dragões antigos e de outros cultos mostra que a Ordem Dourada foi uma ordem histórica construída sobre um mundo muito mais antigo.
Godfrey e as guerras da Térvore
Godfrey tornou-se o primeiro Lorde Prístino de Marika. Antes de assumir esse papel, era Hoarah Loux, um guerreiro conhecido por sua violência e força. Serosh, o Regente Bestial, foi carregado em suas costas para conter seu desejo de batalha.
Sob Marika e Godfrey, as forças da Térvore enfrentaram inimigos que ameaçavam ou recusavam a nova ordem. A Guerra contra os Gigantes terminou com a derrota quase completa dos Gigantes de Fogo. A Chama da Ruína, capaz de ameaçar a Térvore, não pôde ser extinta, e o último Gigante de Fogo foi condenado a guardá-la.
Leyndell também foi atacada por dragões antigos. Gransax rompeu as defesas da capital, dando início a um conflito que mais tarde resultou em uma aproximação entre a Ordem da Térvore e o culto dos dragões. Godwyn, o Dourado, derrotou Fortissax e acabou tornando-se seu amigo, permitindo que o culto dracônico fosse incorporado à capital sem ser considerado incompatível com a Térvore.
Quando os grandes inimigos de Godfrey haviam sido derrotados, a Graça foi retirada dele e de seus guerreiros. Esses exilados tornaram-se os Maculados. Marika ordenou que partissem, lutassem e morressem longe das Terras Intermédias — com a promessa de que um dia a Graça lhes seria devolvida.
Radagon, Rennala e Caria
Liurnia resistiu à expansão da Ordem Dourada. Radagon liderou campanhas contra as forças carianas, mas a guerra terminou não com a destruição de Caria, e sim com sua união a Rennala, Rainha da Lua Cheia. O casamento aproximou a Casa Cariana e a Ordem Dourada.
Radagon e Rennala tiveram três filhos: Radahn, Rykard e Ranni. Mais tarde, quando Godfrey já havia sido exilado, Radagon deixou Rennala e voltou para Leyndell para tornar-se consorte de Marika e segundo Lorde Prístino.
A grande revelação do jogo base é que Radagon e Marika são a mesma entidade, embora mantenham identidades, vontades e ações que nem sempre coincidem. A relação entre os dois é uma das chaves para entender a crise final da Ordem Dourada: Marika é associada à quebra do Anel Prístino, enquanto Radagon tenta repará-lo.
Os filhos de Rennala e Radagon passaram a ser reconhecidos como semideuses depois da união de Radagon com Marika. Cada um seguiria um caminho profundamente diferente durante a Ruptura.
A Morte Destinada e a Noite das Facas Negras
A Runa da Morte permanecia selada com Maliketh, mas um fragmento foi roubado. Esse poder foi usado para imbuir as facas das assassinas responsáveis pela Noite das Facas Negras.
Na mesma noite, Godwyn, o Dourado, foi assassinado em alma. Ranni também morreu, mas apenas em corpo. Os dois eventos são ligados pelas marcas da Runa da Morte: a morte incompleta de cada um produziu consequências que atravessariam toda a era seguinte.
O corpo de Godwyn continuou existindo e foi enterrado nas profundezas das raízes. A corrupção ligada ao Príncipe da Morte começou a se espalhar, dando origem à Morte em Vida e às raízes mortuárias encontradas por várias regiões.
Ranni, por outro lado, libertou-se do corpo empíreo associado aos Dois Dedos. Seu caminho passa a girar em torno de romper com a ordem que tentava determinar seu destino e de estabelecer uma nova relação entre o mundo e as forças que o governam.
A Ruptura
Após a morte de Godwyn, Marika quebrou o Anel Prístino. Os motivos exatos de sua decisão continuam sendo objeto de interpretação, mas o resultado é claro: a ordem do mundo foi fragmentada.
Os fragmentos do Anel tornaram-se Grandes Runas e foram tomados pelos descendentes semidivinos de Marika. O poder dessas runas alimentou uma guerra conhecida como Ruptura. Nenhum dos semideuses conseguiu impor uma vitória definitiva e tornar-se novo Lorde Prístino.
Godrick se refugiou em Limgrave e buscou poder pelo enxerto. Rykard rejeitou a Térvore e entregou-se à Serpente Devoradora de Deuses. Morgott permaneceu protegendo Leyndell apesar de ter sido rejeitado pela própria ordem que defendia. Mohg construiu sua própria dinastia em torno da Mãe Sem Forma. Malenia e Radahn tornaram-se os símbolos do impasse militar da guerra.
A batalha entre Malenia e Radahn devastou Caelid. Malenia liberou a Podridão Escarlate, enquanto Radahn sobreviveu fisicamente, mas perdeu a razão. O Festival de Radahn seria criado para dar ao general uma morte digna em combate.
Miquella e a Haligtree
Miquella e Malenia nasceram da união de Marika e Radagon. Ambos carregavam aflições: Malenia era consumida pela Podridão Escarlate, enquanto Miquella permanecia preso a uma juventude eterna.
Miquella buscou soluções fora do fundamentalismo da Ordem Dourada. Criou o Ouro Puro para resistir à influência de deuses exteriores e tentou fazer crescer a Haligtree, um novo centro de vida que também se tornou refúgio para povos rejeitados pela ordem dominante.
Durante esse processo, Miquella colocou a si mesmo dentro da árvore. Mohg retirou seu corpo da Haligtree e o levou para o Palácio Mohgwyn, onde tentou elevar Miquella à divindade e tornar-se seu consorte. O corpo permaneceu inerte, mas a história de Shadow of the Erdtree revela que a jornada de Miquella não terminou ali.
A DLC também esclarece que Miquella admirava Radahn desde a infância e o via como alguém capaz de ocupar o papel de lorde em sua futura era.
O retorno dos Maculados
Depois do fracasso dos semideuses em encerrar a Ruptura, a Graça voltou a chamar os Maculados. O protagonista retorna às Terras Intermédias como parte desse movimento.
A missão aparente é reunir Grandes Runas, alcançar a Térvore e tornar-se Lorde Prístino. No caminho, porém, o Maculado descobre que a entrada da Térvore está bloqueada. Para avançar, é necessário cometer o pecado cardinal de queimá-la e libertar novamente a Morte Destinada.
A jornada coloca o jogador diante de diferentes respostas para a crise da ordem: reparar o sistema existente, transformá-lo por uma nova runa, entregar o mundo à Chama Frenética ou seguir Ranni para uma era na qual a ordem é afastada da experiência direta das pessoas.
Nenhum desses caminhos apaga o passado. Cada final é uma resposta diferente às estruturas e tragédias que produziram o mundo em ruínas encontrado pelo jogador.
O Reino das Sombras
Shadow of the Erdtree apresenta uma região escondida da história oficial: o Reino das Sombras. Ali aparecem povos, rituais e conflitos deliberadamente afastados da narrativa gloriosa da Térvore.
Messmer, filho de Marika, liderou uma campanha brutal nesse território. Suas tropas perseguiram e queimaram os habitantes ligados aos chifres e às tradições que antecediam ou contrariavam a ordem de Marika.
A cruzada foi ocultada, e o próprio Messmer permaneceu isolado no Reino das Sombras. Sua chama e a serpente que carregava dentro de si eram motivos de temor para Marika. A história de Messmer revela que a construção da nova era também envolveu violência que a ordem posterior preferiu esconder.
O Reino das Sombras não funciona apenas como uma nova área geográfica. Ele serve como arquivo de tudo aquilo que a era da Térvore tentou remover da memória.
A jornada de Miquella nas Sombras
Miquella entra no Reino das Sombras em busca de ascensão. Ao longo do caminho, abandona partes de si mesmo — corpo, poder, dúvidas e vínculos — em cruzes espalhadas pela região.
Diversos seguidores são atraídos por Miquella. Leda, Ansbach, Thiollier, Freyja, Moore, Hornsent e Dane chegam ao Reino das Sombras por motivos diferentes. O encanto de Miquella ajuda a manter esse grupo unido até que a Grande Runa de Miquella se quebra e parte dessa influência deixa de agir da mesma forma.
A partir daí, as diferenças entre os seguidores tornam-se explícitas. Ansbach busca compreender o destino de Mohg. Freyja procura respostas sobre Radahn. Hornsent carrega sua vingança contra Messmer. Leda transforma sua devoção em desconfiança e violência.
A jornada do jogador passa a ser também uma investigação sobre o preço da compaixão de Miquella e sobre quanto de liberdade ainda existe quando alguém possui o poder de conquistar afetos e vontades.
Metyr e o silêncio da Grande Vontade
A missão de Ymir leva o Maculado até Metyr, Mãe dos Dedos. Essa linha de história muda a forma como os Dois Dedos podem ser interpretados.
Metyr era capaz de receber sinais da Grande Vontade através de seu microcosmo, mas foi quebrada e abandonada. Mesmo sem novas mensagens, continuou esperando. Seus filhos — os Dois Dedos — continuaram orientando empíreos e construindo sistemas de autoridade religiosa.
Ymir conclui que o problema da Ordem não começou apenas com Marika: os próprios guias que legitimaram sua ascensão já estavam defeituosos. A afirmação é feita por Ymir e deve ser entendida dentro de sua visão, mas os itens ligados a Metyr confirmam que a comunicação com a Grande Vontade foi interrompida.
Essa revelação não significa necessariamente que toda ação dos Dedos tenha sido falsa. Ela mostra, porém, que a distância entre doutrina, interpretação e vontade divina pode ser muito maior do que a Ordem Dourada admitia.
O voto de Miquella e Radahn
A conclusão de Shadow of the Erdtree gira em torno de um voto entre Miquella e Radahn. Miquella queria Radahn como seu consorte, vendo nele força e bondade adequadas ao lorde de uma nova era.
Depois de o Festival de Radahn terminar com a morte do general, Miquella busca restaurar sua alma. Ansbach descobre que o corpo de Mohg seria usado como receptáculo para o retorno de Radahn.
No Portão da Divindade, Radahn retorna como Consorte Prometido. Na segunda fase do confronto, Miquella aparece em sua forma divina e luta ao lado dele. A vitória do Maculado impede a concretização daquela nova era.
O jogo deixa espaço para discussão sobre os termos completos do voto e sobre a vontade de Radahn. O que é confirmado é que Miquella desejava Radahn como consorte, que existia um voto entre eles e que o plano final dependia do retorno da alma de Radahn em um novo receptáculo.
O que Shadow of the Erdtree muda
A DLC não substitui a história do jogo base; ela reorganiza a maneira como vários eventos são entendidos. Marika deixa de ser apenas a fundadora distante da Ordem Dourada e passa a ser ligada a um passado pessoal no Reino das Sombras, a uma cruzada apagada e a filhos que foram escondidos da história.
Miquella deixa de ser somente a figura ausente da Haligtree. Sua capacidade de inspirar afeto ganha um lado ambíguo, e seu projeto de compaixão é mostrado junto do custo necessário para alcançar a divindade.
Os Dedos também perdem parte da imagem de intérpretes confiáveis de uma autoridade cósmica contínua. Metyr mostra que a cadeia de comunicação com a Grande Vontade sofreu uma ruptura muito antes da jornada do Maculado.
No fim, Elden Ring continua tratando de ordens criadas, mantidas e substituídas. Deuses e lordes tentam transformar leis, corpos e memórias em estruturas permanentes, enquanto o mundo permanece cheio das consequências que essas estruturas tentaram esconder.
